Medicamento para distrofia muscular de Duchenne é suspenso nos EUA após a morte de 2 adolescentes; entenda

O uso do Elevidys, nome comercial do medicamento delandistrogeno moxeparvovequel, indicado para o tratamento da distrofia muscular de Duchenne (DMD), foi suspenso nos Estados Unidos para pacientes que não conseguem mais andar. A medida foi anunciada pela Sarepta, empresa de biotecnologia que detém os direitos do medicamento no país, e pela Roche, que comercializa o medicamento no Brasil e no resto do mundo, e foi motivada pela morte de dois adolescentes que fizeram uso do tratamento por insuficiência hepática aguda.

“Em 13 de junho de 2025, o Comitê de Segurança de Medicamentos da Roche tomou a decisão de iniciar as Restrições Urgentes de Segurança para o Elevidys (delandistrogeno moxeparvoveque) para pacientes não deambuladores (independentemente da idade). Com efeito imediato, nenhum novo paciente não deambulador (independentemente da idade) deve receber a dose de Elevidys para a distrofia muscular de Duchenne (DMD)”, diz a Roche, em comunicado.

A farmacêutica explica que pacientes deambuladores são aqueles que conseguem andar uma distância de 10 metros em até 30 segundos. Aquele que demoram mais de 30 segundos para percorrer essa distância são considerados não deambuladores, pois já não conseguem andar a pequenas distâncias em um tempo ideal e utilizam da cadeira de rodas para longos percursos.

O Elevidys é a primeira terapia gênica para distrofia muscular de Duchenne (DMD), um diagnóstico raro que leva ao enfraquecimento e deterioração dos músculos. O medicamento também chama atenção por ser um dos mais caros do mundo.

Nos Estados Unidos, a dose chega a 3,2 milhões de dólares. No Brasil, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) definiu o preço em até R$ 11 milhões, o mais elevado para um remédio no Brasil, acima até mesmo do Zolgensma, indicado para atrofia muscular espinhal (AME).

De acordo com informações da Anvisa, o Elevidys é um medicamento de terapia gênica que funciona utilizando um vetor viral para transportar um gene humano que codifica a microdistrofina, com o objetivo de substituir a proteína distrofina disfuncional ou ausente no organismo do paciente.

Esse tratamento visa restaurar, ainda que de forma parcial, a função muscular em pacientes pediátricos. O medicamento é administrado em uma única dose intravenosa, com a quantidade ajustada de acordo com o peso da criança.

A doença se caracteriza por uma lesão muscular progressiva, que leva o indivíduo até o estágio incapacitante. Em geral, os sintomas de fraqueza muscular começam entre os 3 e os 6 anos de idade. Embora a gravidade da doença e a expectativa de vida variem, os pacientes geralmente sucumbem à doença na faixa dos 20 ou 30 anos devido à insuficiência cardíaca e/ou respiratória.

Por isso, no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o tratamento apenas para crianças de 4 a 7 anos de idade, que conseguem andar. De acordo com a agência, para pacientes acima de 7 anos e que perderam a capacidade de locomoção funcional, “os dados disponíveis são limitados e ainda não são suficientes para verificar o benefício do uso do produto”.

Portanto, as mortes ocorridas nos EUA e a suspensão não afetam os pacientes brasileiros nem de outros lugares do mundo em que o medicamento está aprovado e que fazem parte desse grupo de crianças com até 7 anos de idade, sem problemas de locomoção.

— Para esses pacientes de 4 a 7 anos que estão no Brasil, nos Estados Unidos, ou em outros países onde o medicamento está aprovado, não há suspensão — ressalta Hilda Petrs Silva, PhD, especialista em vetores de AAV, que é a base do medicamento Elevidys, e parte integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Terapia Gênica no Brasil (INCT-INTERGEN).

Mesmo assim, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu informações ao Ministério da Saúde, à Anvisa e à farmacêutica Roche Brasil sobre a gravidade dos efeitos colaterais do medicamento Elevidys. Em despacho enviado na última segunda-feira (16), o ministro questiona se houve alteração da classificação de segurança para o uso do Elevidys em pacientes menores de oito anos de idade.

O relator também quer saber se há informações sobre efeitos colaterais graves e permanentes em crianças que receberam o tratamento no Brasil e, em caso afirmativo, qual a frequência, os seus efeitos e o nível de comprovação da relação destes efeitos adversos com a infusão do medicamento. O ministro também requer informações sobre a extensão da suspensão determinada pela Roche.

A Roche ressaltou que está trabalhando em estreita colaboração com as autoridades de saúde relevantes (como Anvisa e Ministério da Saúde), e médicos prescritores para garantir que estejam informados. A empresa também ressalta que todos receberam comunicados e informativos no último domingo sobre a decisão e o ocorrido.

Entenda a suspensão nos EUA

Nos Estados Unidos, a aprovação da FDA, agência que regula medicamentos no país, para o medicamento é mais ampla que no Brasil. No ano passado, a agência expandiu a aprovação do Elevidys para indivíduos deambuladores com 4 anos de idade ou mais.

A FDA também concedeu “aprovação acelerada” do medicamento para pacientes não deambulares com 4 anos de idade ou mais com DMD e uma mutação confirmada no gene DMD. Esse tipo de aprovação é realizada pela FDA para medicamentos para doenças graves ou potencialmente fatais, quando há uma necessidade médica não atendida e o medicamento demonstrar ter um efeito em um desfecho substituto com probabilidade razoável de prever benefício clínico para os pacientes (melhorando o bem-estar ou a funcionalidade, ou se eles sobrevivem por mais tempo), ou um efeito em um desfecho clínico que possa ser medido antes da morbidade ou mortalidade irreversível.

Neste caso, os pacientes recebem o tratamento, enquanto é realizado um ensaio clínico randomizado e controlado que confirma a eficácia do medicamento no grupo. Como as duas mortes relatadas ocorreram em pacientes dessa população, a Sarepta suspendeu temporariamente as remessas de Elevidys para pacientes não deambuladores “enquanto um regime imunossupressor aprimorado é avaliado, discutido com os órgãos reguladores e implementado” e também suspendeu temporariamente e voluntariamente a dosagem no estudo clínico.

A primeira morte de um paciente após a administração do paciente foi relata em março, em um adolescente de 16 anos. A segunda, foi relatada em 11 de junho e ocorreu em um jovem de 15 anos no estudo Envision.

Em ambos, o paciente faleceu após desenvolver insuficiência hepática aguda. Embora o quadro seja um efeito colateral bem documento de terapias gênicas, ambas as mortes ainda estão em investigação. No primeiro paciente, por exemplo, uma infecção recente por citomegalovírus pode ter contribuído para o quadro.

Silva, PhD explica que problemas hepáticos são previstos em terapias gênicas. Esse não é um efeito colateral específico do Elevidys nem desconhecido. Entretanto, até o momento, em todos os pacientes que esse tipo de dano ocorreu após o uso do medicamento, ele foi controlado.

— O caso desses dois pacientes têm questões importantes que eu acho importante ressaltar. Primeiro, a dose desse medicamento é baseada no peso. Então, pacientes mais velhos, consequentemente, vão receber uma dose maior. Isso significa mais partícula viral, que é o que leva o gene correto para a célula, onde o gene está defeituoso. Então, uma possibilidade é a falência hepática ter acontecido por causa da dose alta do Elevidys — explica Silva. — Outra questão relevante é que o primeiro paciente tinha citomegalovírus, que é um vírus que fica alojado no fígado. Além disso, os pacientes com Duchenne, no geral, principalmente os mais velhos, com a doença mais avançada, apresentam comprometimento no fígado. Então, não se sabe se esse efeito foi a combinação de fígado com problema com muito vetor, ou se um fígado ja comprometido apresentaria o mesmo problema, mesmo com dose menor do vetor.

O Elevidys já foi administrado a mais de 900 pacientes em todo o mundo, incluindo 140 pacientes não deambulantes. A Roche também já solicitou à Anvisa e outras agências regulatórias a inclusão de insuficiência hepática como um dos efeitos colaterais listados na bula do medicamento.

Fonte: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/06/17/medicamento-para-distrofia-muscular-de-duchenne-e-suspenso-nos-eua-apos-a-morte-de-2-adolescentes-entenda.ghtml

17/6/2025

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