
As operadoras de planos de saúde tiveram lucro líquido de R$ 6,9 bilhões no Brasil no primeiro trimestre de 2025. É mais que o dobro de igual período de 2024 (R$ 3,1 bilhões), segundo dados de painel da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) divulgados na última terça-feira 3/6.
O resultado deste ano é o maior para o intervalo de janeiro a março na série histórica do painel, iniciada em 2018. A máxima anterior do primeiro trimestre havia sido registrada em 2019 (R$ 3,9 bilhões), antes da pandemia.
Em nota, a ANS afirmou que o desempenho do segmento “consolida a recuperação do resultado operacional”. Esse indicador teve saldo positivo de R$ 4,4 bilhões, maior patamar da série para o primeiro trimestre.
O resultado operacional é a diferença entre as receitas e as despesas diretamente relacionadas com as operações de assistência, excluindo ganhos financeiros.
“Esse desempenho reflete não apenas uma recomposição de receitas, mas também um movimento importante de equilíbrio nas despesas assistenciais. Nosso compromisso segue sendo o de fornecer informações cada vez mais qualificadas e acessíveis para toda a sociedade”, declarou o diretor de normas e habilitação das operadoras da ANS, Jorge Aquino.
Considerando os planos médico-hospitalares, os odontológicos e as empresas administradoras de benefícios em conjunto, o lucro líquido foi de R$ 7,1 bilhões no primeiro trimestre de 2025.
Houve aumento de 114% em relação ao mesmo período do ano anterior (R$ 3,3 bilhões). Também é o maior patamar da série iniciada em 2018 para o primeiro trimestre. O painel da ANS considera dados nominais -sem ajuste pela inflação.
As administradoras de benefícios não operam os planos. São intermediárias entre as operadoras e os contratantes dos serviços.
O setor de planos de saúde é alvo de uma série de críticas de consumidores no país. As reclamações envolvem pontos diversos, desde o cancelamento de contratos até os reajustes das mensalidades.
O setor, por sua vez, se queixa do aumento do custo médio dos serviços devido à incorporação de tecnologia. A situação ocorre em meio ao envelhecimento da população, que tende a elevar a demanda por atendimentos de saúde.
“Com bastante frequência, a sustentabilidade econômica é utilizada como argumento para justificar práticas extremamente prejudiciais e abusivas aos consumidores, especialmente no âmbito de planos de saúde coletivos, caracterizados por altos reajustes e rompimentos imotivados. Os dados recentes divulgados pela ANS indicam que, na prática, os supostos riscos econômicos não se verificam”, disse Marina Paullelli, coordenadora do programa de saúde do Idec (Instituto de Defesa de Consumidores).
“O mesmo vale para a judicialização. Na maioria dos casos, as pessoas consumidoras iniciam uma ação judicial quando não tiveram sucesso na resolução do problema diretamente com a operadora ou em casos de urgência e emergência”, acrescentou.
A FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar) afirmou que a recuperação do setor no primeiro trimestre é positiva para o sistema e, portanto, para os beneficiários. A entidade, porém, faz ressalvas.
“É preciso salientar que, apesar desses sinais de retomada, o lucro de R$ 6,9 bilhões representa uma margem de lucro de 8,6% no trimestre. Nos últimos 12 meses, essa margem é ainda mais estreita, de 4,4%”, diz.
A federação ainda menciona o indicador de retorno sobre o patrimônio, o ROE, que calcula o que as empresas geram sobre o dinheiro que os acionistas aportam.
“O ROE da saúde suplementar foi de 10,1% no trimestre, o que, comparado com outros setores da economia, é modesto. Há setores regulados que tiveram resultados mais expressivos no mesmo período: energia elétrica, de 14,87%; saneamento, de 16,2%; e mineração, de 24,48%”, afirma a FenaSaúde.
A reportagem também pediu avaliação sobre os dados divulgados pela ANS para a Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde), mas não recebeu retorno.
Na segunda (2), a OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo) manifestou “profunda preocupação” com o que chamou de “descumprimento sistemático de decisões judiciais por operadoras de planos de saúde”.
“Enquanto se debate a litigância predatória por parte de alguns consumidores, ignora-se a face estruturalmente mais perversa da judicialização da saúde, em que empresas deixam de cumprir decisões judiciais que determinam a cobertura de procedimentos, medicamentos e tratamentos, assumindo o risco de penalizações mínimas e tratando a multa judicial como custo operacional -muitas vezes, menor que o custo de cumprir a obrigação”, disse a OAB-SP.
A FenaSaúde afirma que os custos com judicialização foram menores no primeiro trimestre, mas ainda representam uma “proporção importante” do faturamento das operadoras. Chegam a 10% do resultado líquido de R$ 6,9 bilhões, aponta a federação.
“A recuperação do setor vem refletindo o esforço das operadoras, que têm adotado medidas rigorosas de gestão, como controle de custos, renegociação de contratos, revisão de preços e combate a fraudes e desperdícios. São iniciativas fundamentais para reverter as perdas acumuladas e reestabelecer o equilíbrio financeiro”, disse a entidade.”
4/6/2025
OPINIÃO:
Lucros dos Planos de Saúde e Garantia de Atendimento
Os planos de saúde desempenham um papel crucial no sistema de cuidado médico, funcionando como intermediários entre os pacientes e os prestadores de serviços de saúde. No entanto, uma das questões centrais que surgem nesse setor envolve a relação entre os lucros das operadoras e a garantia de atendimento de qualidade para os beneficiários.
Nos últimos anos, as operadoras de planos de saúde têm registrado lucros expressivos. O aumento na adesão a planos privados, impulsionado pela sobrecarga do sistema público de saúde, e a diversificação de produtos oferecidos são fatores que contribuem para esse crescimento. Além disso, a otimização de processos administrativos e a introdução de tecnologias para monitoramento de custos têm permitido maior eficiência operacional, aumentando as margens de lucro.
Estes lucros, embora positivos para a sustentabilidade das empresas, levantam questões quanto ao equilíbrio entre o retorno financeiro e o compromisso com a saúde dos beneficiários. Críticos argumentam que o foco excessivo em metas financeiras pode resultar em práticas como a negativa de cobertura, aumento de mensalidades e restrição de acesso a determinados tratamentos.
Um dos direitos mais discutidos pelos beneficiários é a garantia de atendimento rápido, eficaz e abrangente, conforme estabelecido pela legislação brasileira. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) regula o setor e estabelece prazos para consultas, exames e outros procedimentos, buscando assegurar que as operadoras cumpram suas obrigações.
Apesar disso, muitos usuários relatam dificuldades no acesso a serviços, como demora no agendamento de consultas com especialistas ou recusa de cobertura para determinados procedimentos. Essas situações geram insatisfação e, frequentemente, levam a judicializações que questionam as práticas das operadoras.
O principal desafio enfrentado pelos planos de saúde é encontrar um equilíbrio entre a sustentabilidade financeira e o atendimento de qualidade. Para maximizar lucros, algumas operadoras adotam políticas rigorosas de controle de custos, que podem incluir auditorias frequentes em pedidos médicos e restrições a tratamentos de alto custo. Essas medidas, embora justificadas sob a ótica empresarial, muitas vezes afetam negativamente os beneficiários.
É importante que as operadoras privilegiem, em suas medidas, o alinhamento da eficiência financeira com atendimento de excelência. Investimentos em programas de promoção da saúde e prevenção de doenças, por exemplo, costumam mostrar resultados positivos tanto para os pacientes quanto para a redução de despesas médicas a longo prazo.
A solução para o conflito entre lucros e garantia de atendimento passa por maior transparência e regulamentação. A ANS tem um papel fundamental em garantir que as operadoras cumpram padrões mínimos de qualidade e que os direitos dos usuários sejam preservados. Além disso, a implementação de políticas públicas que incentivem práticas éticas e sustentáveis no setor pode contribuir para um equilíbrio saudável entre lucro e atendimento.
Outro ponto crucial é o empoderamento dos beneficiários, por meio de mais informações sobre seus direitos e sobre a atuação das operadoras. Quando os consumidores estão bem informados, têm mais chances de exigir serviços adequados e pressionar o mercado por melhorias.
O debate sobre os lucros dos planos de saúde e a garantia de atendimento é complexo e multifacetado. Embora o lucro seja um componente necessário para a sustentabilidade das operadoras, ele não pode ser priorizado em detrimento da saúde e do bem-estar dos beneficiários. Um sistema equilibrado, que valorize tanto a eficiência financeira quanto o cuidado de qualidade, é essencial para garantir um futuro mais justo e saudável para todos os envolvidos.
Melissa Areal Pires
Advogada Especialista em Direito Aplicado aos Serviços de Saúde e Direito do Consumidor