

As operadoras de planos de saúde tiveram um lucro líquido de R$ 5,1 bilhões de janeiro a junho deste ano. Esse é o melhor desempenho-econômico financeiro para um primeiro semestre desde 2019, segundo dados divulgados nesta terça-feira pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que tira da conta o lucro atípico de 2020, ano da pandemia de Covid-19, quando por conta de suspensão de atendimentos eletivos, o lucro do setor como um todo ultrapassou os R$ 11 bilhões nesse período. Segundo a reguladora, as operadoras exclusivamente odontológicas registraram lucro de R$ 338 milhões e as administradoras de benefícios, de R$ 106,8 milhões. O setor como um todo registrou lucro líquido de R$ 5,6 bilhões no primeiro semestre deste ano.
Pela primeira vez desde 2021, as operadoras médico-hospitalares fecharam o primeiro semestre com um saldo positivo na diferença entre as receitas e despesas diretamente relacionadas às operações de assistência à saúde, o resultado operacional foi de R$ 2,4 bilhões. Segundo a ANS, com esse resultado o segmento se aproxima do patamar dos anos pré-pandemia de Covid-19. Os dados da reguladora mostram ainda que a recuperação do resultado operacional se deu em todas as modalidades, exceto autogestões, que tiveram prejuízo operacional de R$ 1,1 bilhão, semelhante ao apurado no mesmo período de 2023.
– Não temos como fazer uma projeção do que vem pela frente observando esses dados agregados, pois há uma diversidade de comportamentos heterogêneos. Em termos sazonais, o 1º e 4º trimestres são os melhores em termos de resultado e o 2º e 3º tendem a ser mais desafiadores em termos de contas setoriais – logo não dá para dizer que 2º semestre poderá ser melhor. Ainda assim, a recuperação das contas gerais demonstra que a sinistralidade parece estar retornando aos mesmos patamares pré-pandemia – afirma Jorge Aquino, diretor de Normas e Habilitação das Operadoras da ANS.
De fato, a sinistralidade dos planos de saúde de 85,1% apurada nesse semestre se equipara a de 2018, sendo a melhor pós-pandemia. O resultado, segundo a ANS, está diretamente relacionado a recomposição das mensalidades com reajustes aplicados pelas operadoras.
Gustavo Ribeiro, presidente da Abramge, associação de empresas do setor, diz que os bons resultados financeiros das operadoras são uma boa notícia para os consumidores e pondera que ainda é cedo para afirmar que o setor terá no ano resultados comparáveis ao do período pré-pandemia:
– A notícia é positiva para os beneficiários, interessados diretos e razão de ser do setor, que, com maior equilíbrio financeiro se mantém hígido para cumprir seus contratos e sustentar o acesso à saúde privada no Brasil. Historicamente, o segundo e o terceiro trimestre são marcados por influenza, doenças virais e respiratórias que se acumulam com os demais tratamentos, trazendo despesas assistenciais mais elevadas. Por isso é importante aguardarmos mais alguns períodos para entender se o setor conseguirá chegar ao fim deste ano nos moldes pré-pandêmicos.
Vera Valete, diretora-executiva da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), pondera que os resultados refletem os ajustes feitos pelo setor, principalmente, em mecanismos de combate à fraude:
– Os indicadores do semestre refletem fortes ajustes feitos pelas operadoras no sentido de dar mais equilíbrio ao sistema e, assim, proteger quem mais deve ser protegido: o beneficiário dos planos. Entre esses esforços, certamente o mais relevante foi o combate a fraudes. De 2019 a 2023, a FenaSaúde e suas associadas registraram 4.502 notícias-crime e ações cíveis relacionadas a fraudes, com crescimento expressivo ano a ano. Só nos últimos dois anos o total de notícias-crime aumentou 66%.
De acordo com o estudo “Fraudes e Desperdícios em Saúde Suplementar”, conduzido pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) em parceria com a consultoria EY, as perdas totais no setor, decorrentes de fraudes e desperdícios, foram estimadas entre R$ 30 bilhões e R$ 34 bilhões em 2022. Esse montante equivale a aproximadamente 11,1% a 12,7% da receita total da saúde suplementar.
Na visão do coordenador de Saúde do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), Lucas Andrietta, os dados da ANS comprovam que a narrativa dos planos de saúde sobre dificuldades financeiras é enganadora e oportunista.
– O uso de uma retórica ameaçadora envolvendo a “sustentabilidade” do setor é um deboche com o sofrimento de pacientes e consumidores, num setor onde abundam relatos de práticas abusivas, explode o número de reclamações e onde as empresas usufruem amplamente de lacunas normativas e da omissão regulatória da ANS – diz Andrietta.
Em nota, a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) analisa que o resultado confirma que as operadoras de planos de saúde superaram a etapa de dificuldades vividas especialmente nos anos de 2022 e 2023. E completa afirmando que agora “cabe esperar que esses resultados financeiros contribuam para melhorar a situação dos hospitais que seguem sofrendo com glosas e outras medidas adotadas para, no período de crise, adiar os pagamentos aos prestadores de serviços”.
– O funcionamento financeiramente sustentável do setor, com bons resultados das operadoras, é essencial para todos. Isto, porém, não pode deixar de lado dois problemas fundamentais. O primeiro é a necessidade de, apesar dos resultados positivos, todos seguirem trabalhando por medicina de qualidade, respeito aos beneficiários e uma busca intensa por eficiência e combate ao desperdício. Um trimestre positivo como este não dispensa o setor de trabalhar com mais unidade, cooperação e ênfase na melhoria do sistema”, afirma o diretor-executivo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Antônio Britto.
03/9/2024