
Interesses antagônicos, educação sobre saúde defasada e a ética médica mercantilizada, trazem à tona um sistema que precisa ser repensado para se tornar sustentável.
Atualmente apenas 25% dos brasileiros são atendidos pelas operadoras de planos de saúde, sendo que 70% estão sob a responsabilidade das empresas. O benefício mais valorizado para os profissionais brasileiros, também é o mais caro e difícil de sustentar. Interesses antagônicos, falta de educação (relacionada a saúde) e a ética médica mercantilizada, trazem à tona um sistema que precisa ser repensado pela sociedade, já que a mistura destes ingredientes criou um modelo insustentável financeiramente falando.
Um exemplo para tentar entender essa situação: recentemente um conhecido adentrou no pronto socorro de um hospital cinco estrelas em São Paulo, pois estava se sentindo muito cansado, uma vez que havia exagerado na corrida matinal de dez quilômetros. Ele acabou ficando quarenta e oito horas internado na Unidade Semi-intensiva, porque de acordo com os médicos que o atenderam, ele poderia sofrer uma recaída. Importante salientar que o histórico médico dele era o melhor possível. Só não ficou mais tempo, porque um médico amigo foi até lá para libertá-lo.
Esta “precaução médica” gerou uma receita para o hospital e um custo para a operadora próximo de R$ 8.000,00 (oito mil reais), que será transferida para a conta da empresa através de sinistro. Esta despesa criada de forma desnecessária pelo corpo clínico do hospital e repassada para a operadora irá bater no caixa da empresa na renovação do contrato.
Este caso é um exemplo de Interesses antagônicos onde você, ao buscar auxilio rápido e resolutivo, encontra um fornecedor com interesse diferente: o lento e paliativo. Infelizmente este fornecedor tem a vantagem de conduzir o atendimento, isso faz com que muitas vezes nos tornemos reféns de interesses comerciais. Acontecimentos deste tipo impactam o setor. Dados estatísticos mostram que nos últimos quinze anos a inflação médica ficou em 270%, três vezes mais que a inflação (IPCA e IGP-M) usada nos reajustes comerciais e acordos coletivos.
Com certeza, ao ler o que aqui relato, você irá pensar: “esse cara não sabe o que está falando, pois ninguém vai a um hospital a passeio, sem necessidade”. Me baseio na experiência de quase vinte anos no mercado e garanto que você está enganado. Muitas pesquisas mostram que mais de 60% dos casos atendidos em prontos-socorros são situações de baixíssima gravidade e que poderiam ser resolvidos fora do ambiente hospitalar, e de preferência em casa.
As operadoras de saúde possuem o papel de intermediarias, procuram, através de processos (pouco eficazes), criar mecanismos que facilitem o atendimento, na expectativa de que estas instituições de saúde, através de protocolos médicos definidos, busquem a resolutividade do problema no menor custo possível.
Infelizmente esta tarefa se torna uma obra impossível de ser realizada uma vez que será o médico, orientado pela visão mercantilista do hospital, que irá construir a conta que será paga pela operadora e repassada ao sinistro da empresa, já que ao entrar no hospital você alimentou um modelo ineficiente e até mesmo inconsequente.
O que você deve fazer para tentar minimizar esses impactos
O que você precisa saber é que neste momento sua saúde torna-se uma mercadoria valiosa a ser negociada. É importante termos educação para a saúde, não podemos terceirizar decisões que nos cabem, com o pensamento errôneo de que apenas a empresa está bancando grande parte desta conta. Esta forma de pensar, com certeza, alimenta a extinção do sistema de saúde suplementar no Brasil.
Conhecer nosso corpo, histórico familiar de doenças, hábitos nada saudáveis, o eterno sedentarismo e entender o impacto destas escolhas em nosso organismo é antes de tudo uma obrigação que devemos com nós mesmos. Educação para saúde começa com muitas perguntas, observação, percepção e acima de tudo autoconhecimento. Passar a acompanhar e entender como este mercado funciona e o que precisamos saber para usá-lo corretamente evitando desperdícios e assim aumentar sua resolutividade é de suma importância.
Descubra um médico de que goste, confie e dê a ele o titulo de “médico de família”, aquele personagem da época de nossos pais e avós e tão demandados nos dias de hoje. Este é para mim o ponto principal a ser explorado, pois através dele poderá evitar uma série de transtornos e perda de tempo.
Peça para sua operadora uma indicação, uma vez que hoje os principais programas de prevenção à saúde têm como base o médico de família. Sempre procure uma segunda opinião médica em caso de indicações de cirurgias ou tratamentos de alta complexidade, elas são vitais para o sucesso do seu tratamento. Um estudo realizado pelo hospital Albert Einstein demonstra que quase 60% das cirurgias de colunas indicadas eram desnecessárias.
Preste atenção cada vez que for assinar um documento hospitalar ou laboratorial. Questione o que esta assinando e a necessidade do procedimento. Médico não é Deus e assim como nós, também erra. Faça sua parte, estude sua situação. O Google pode ajudar com isso. Discussões com conteúdo ajudam no diagnóstico e aceleram o prognóstico. Use o aplicativo da operadora do seu plano de saúde e baixe também aqueles que ajudarão na prevenção e promoção da saúde. Incentive e cobre de sua empresa ações de orientação, comunicação e participe dos programas de prevenção e promoção à saúde.
Enquanto a economia compartilhada e a inteligência artificial não se fazem presentes e disponíveis, façamos a nossa parte para que ao invés de elitizarmos a saúde possamos ajudar expandir sua atuação, permitindo que os tratamentos necessários sejam acessíveis a todos. Se pelo menos uma parte dessas sugestões forem colocadas em prática, tenho certeza que os interesses antagônicos se tornarão interesses comuns beneficiando todos.
*Sobre o autor: Ricardo Lopes é Diretor da unidade de Consultoria e Gestão de Benefícios da ProPay. Administrador de Empresas formado pela FEA – USP com pós no CEAG – FGV, Lopes tem a sua atuação focada em Plano de Saúde, Assistência Odontológica, Seguro de Vida e Previdência Privada. Acesse: http://www.propay.com.br
31/3/17